Mostrando postagens com marcador idade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador idade. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de outubro de 2011

Namoros e namorados



Outro dia eu estava conversando com uma amiga sobre namorados. Eu tive muitos e ela dois. Lembro-me do nome completo de todos eles. Eu ia contando e a minha amiga ficava impressionada. Dos quinze aos 20 anos de idade, foram três Sérgios, dois Marcelos, dois Ricardos, dois Reinaldos, além do Joel, do Aldo, do Riquinho, do Cizinho, do Paulinho, do Arthur, do Fernando e do Glauco. Ufa! Sem falar do namoro que virou noivado e depois casamento. Esse não entrou na contagem.
Naquele tempo, a gente não ficava... namorava. E namorado era um amigo com quem eu andava de mãos dadas. Andar abraçados, só depois de alguns meses. Às vezes nem dava tempo, o namoro terminava antes de atingir esse estágio. Beijo era só no rosto. Havia respeito ou temor, sei lá. 
Meu pai fazia questão de que se namorasse dentro de casa. Com dias e horários predeterminados. Terças, quintas, sábados e domingos, das oito às dez horas, no máximo. Era a maneira mais fácil de manter o controle.
Minha casa vivia repleta de amigos e os namorados se integravam à minha turma. Eu estudei em um só colégio durante toda a minha adolescência, frequentava dois clubes, praticava esportes e fazia inglês. Eu tinha um círculo social grande, daí eu conhecer muita gente e me tornar uma namoradeira.
Os namoros duravam em média dois ou três meses. Quando eu via que não ia dar certo, já ficava de olho em outro. Qualquer bobagem era motivo para terminar. Alguns duraram mais - um ano, dois. E é claro que eu também não fui tão santa assim. 
Eu tenho um tio que sempre dizia que para arrumar namorado é preciso primeiro ter um. E depois que já estivesse namorando, era preciso já pensar em outro para deixar na reserva, porque menina sozinha não atraía ninguém. Ele falava isso na brincadeira, mas eu, na minha ingenuidade juvenil, levava essa história a sério e seguia esse conselho.
Mas eram relacionamentos saudáveis, alegres, companhias para sair, ir ao cinema e festinhas. Detalhe: com namorado novo sempre levava uma vela. Mas eu dava as minhas escapadinhas...    
Aproveitei, no tempo certo, tudo o que eu podia e aproveitei muito! Quando senti a necessidade de formar uma família, eu sosseguei. Acredito que esse é o motivo de hoje eu gostar de ficar só e em casa. Só saio se for para um programa bem legal, com pessoas bastante interessantes. Não sinto necessidade de sair apenas por sair.
Hoje o meu sentido de vida é outro. A minha própria companhia me agrada.
É assim que eu me sinto feliz.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A vida começa aos 40


Dizem que a vida começa aos quarenta. Não sei com vocês, os que já passaram dessa idade, mas comigo o dito foi verdadeiro.
Comecei a trabalhar muito jovem, nem sequer tinha terminado o segundo grau. Eu era compulsiva em atividades, estudava pela manhã, à tarde tinha aulas de inglês duas vezes por semana,  em outros dois dias eu estudava alemão e trabalhava à noite.
Aos 17 anos passei no vestibular na minha primeira tentativa,  parei com as aulas à tarde, mas continuei trabalhando. No ano seguinte prestei um segundo vestibular e consegui frequentar os dois cursos na mesma Universidade Federal. Naquela época eu acho que era mais difícil ter controle sobre isso, nada era informatizado, por isso consegui cursá-los simultaneamente. Como eu passava o dia inteiro no campus universitário e tinha aula também alguns dias à noite, continuei ganhando meu dinheirinho dando aulas particulares nas casas dos alunos.
Casei também cedo, tive logo em seguida os meus filhos e a minha vida virou uma batalha diária. É muito difícil conciliar casa, filhos, marido e trabalho. Eu não tinha tempo para nada.
Aos trinta e cinco, meus filhos já eram adolescentes, eu voltei a ser solteira e me tornei uma workaholic. Só pensava na carreira, em acumular funções no trabalho, em ser promovida e ganhar mais dinheiro.
Faltava exatamente um mês para os meus quarenta anos, quando fizeram uma brincadeira comigo dizendo que eu estava beirando os "enta" e que ao completá-los eu começaria a descer ladeira abaixo. Recebi a brincadeira como uma sentença de morte. Eu me sentia tão viva, tanto ainda por fazer... Como assim? Será que é porque a gente toma juízo e fica mais precavida? Não me conformei com a ideia. Se aquela era a idade do juízo, que eu sempre tive de sobra, estava na hora de perder um pouco o meu.
Espalhei logo a notícia. Me chamem para tudo, estou aceitando convites para festas, bares, boates, teatros, cinemas, viagens, pois quero muito aproveitar a vida enquanto tenho vitalidade. Decidi que iria diminuir o meu ritmo de trabalho e aumentar o da diversão e lazer.
O problema seria em casa, meus filhos não estavam acostumados a me verem sair. Eu aproveitava o meu tempo livre com eles, mas nem sempre o tempo livre deles era comigo, porque já estavam ganhando o mundo e eu queria ganhar o meu. 
Na primeira vez que fui sair ouvi um batalhão de perguntas: aonde vai, com quem, a que horas volta... Os papéis haviam se invertido. Coisas de "aborrescentes".
Precisava me safar dessa, então tive uma ideia. Eu tinha visto uma camiseta numa loja que resolveria o meu problema. Comprei-a, me arrumei toda e fui me despedir das "crionças", avisando que iria sair novamente. Quando começaram a inquisição, virei de costas, vesti a tal camiseta por cima da minha roupa e me voltei para eles. No peito da camiseta estava escrito: Hoje eu só volto amanhã.
Todos nós caímos na gargalhada e não me perguntaram mais nada. A partir desse dia eu comecei a cuidar de mim e a viver intensamente.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Idade de ser feliz?


Acompanho um blog chamado "O Corpo Perturbador". Nele são postados vídeos de entrevistas feitas com pessoas as mais diversas. São duas as perguntas: o que te perturba e o que é um corpo perturbador.
Tenho pensado muito sobre isso. A consciência do envelhecimento é uma coisa que me perturba. Vi que chegou mais rápido do que eu esperava e não me preparei o bastante para isso. Não me preparei para a reação das pessoas ante o envelhecimento e o preconceito contra a idade.
Uma amiga uma vez comentou comigo como ela tinha gostado de Los Angeles e São Francisco. Lá, disse-me ela, os idosos vivem e não estão nem aí. Vestem roupas coloridas, saem, vão a bares, se divertem, vão dançar e por aí vai. A gente sente que eles são mais felizes.
Alguns hão de dizer que aqui é assim também. Não é não. Aqui espera-se um comportamento para cada faixa etária. Os mais velhos não têm o direito de curtir e demonstrar sua alegria de viver sem serem tachados de ridículos.  Não estou defendo o direito de perderem a noção ou de serem inconvenientes. Defendo o direito de serem felizes e demonstrarem tal felicidade. Por quê os mais velhos devem ser contidos?
Programa de velho aqui é restaurante.  Se pessoas de uma certa idade vão a um barzinho, todos olham.  Se são homens, estão caçando menina nova. Se são mulheres, estão procurando garotões. É esse o comentário geral.  Como se barzinho fosse coisa só para jovem. Só falta pendurarem um cartaz com os dizeres: "Proibido entrada de maiores de 50 anos."
Um corpo perturbador para mim é essa carcaça que cobre minha alegria de menina, a intensidade dos sentimentos de uma adolescente e o prazer de uma mulher, como se ele (corpo) fosse o cartão de visita da minha essência.
Eu me recuso a deixar ser tolhida pela aparência do meu corpo. Meu corpo não deve dominar a minha alma ainda jovem. Eu aceito as rugas, a flacidez, a perda de massa muscular e meus cabelos brancos. Mas não aceito que retirem de mim a minha alegria de viver intensamente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Preto no branco


Para mim é tudo preto no branco. Eu não gosto de meias palavras, não gosto de hipocrisia e me enoja o preconceito. Qualquer tipo de preconceito: racial, idade, gênero, social, cultural e por aí vai.
Fui criada numa família cheia de regras de conduta, onde criança não participava de conversa de adultos. As pessoas conversavam em códigos familiares, ninguém que a ela não pertencesse não entendia nada. Todas as frases tinham duplo sentido, aquilo que se dizia e o que queria dizer.
Fui descobrir o que era menstruação aos 13 anos, quando pensei que o sangramento era de algum corte. Falar sobre sexo, nem pensar. Sobre diferenças, ai,ai,ai.
Para se tornar amiga de uma pessoa eu tinha que responder à tradicional pergunta "é filho de quem?"
Frequentava dois clubes que os sócios eram selecionados pelo bairro onde residiam, profissão e foto. Isso mesmo! Se a foto não condizia com uma das exigências dos clubes - somente brancos - a proposta era reprovada.
Conhecia um garoto mulato, filho adotivo de uma família abastada. A papelada estava toda encaminhada e  aprovada, a única pendência era a foto do filho do casal proponente. Ao recebê-la, o clube inventou uma desculpa e recusou a proposta.
Durante todo o meu período escolar, nunca tive colegas negros.
Estudava em um colégio de freiras avançadas que incentivavam muito a leitura, tanto dos clássicos como a dos escritores modernos. O colégio empregava  presidiários em regime semiaberto e as freiras trabalhavam em ações beneficentes tanto na penitenciária quanto em bairros de baixo poder aquisitivo e convidavam as alunas que quisessem ir. Com elas eu aprendi muito e através dessas ações pude conhecer o outro lado da moeda. Ajudava em creches, visitava os presos, participava de um encontro de jovens de uma igreja católica de periferia onde havia debates sobre temas de interesse dos adolescentes, havia grupos musicais, teatro, etc.
Foi nesse grupo de jovens o meu primeiro contato com negros, além das pessoas que trabalhavam como domésticas em minha casa.
Confesso da surpresa que eu tive na época de os verem como iguais. Tenho vergonha de contar isso, mas o termo "neguinho", "mulatinho" eram comumente usados pejorativamente em minha casa e eu sempre sem entender o porquê.
Conviver com esses jovens da periferia, no início de minha adolescência, abriu um novo mundo para mim.
Apesar de jovem eu entendia que tudo o que me fora ensinado em casa não era verdadeiro, comecei a contestar e a ser tachada de "esquisita".
Eu aprendi, por conta própria, a gostar das pessoas pelo o que elas são, por sua essência. E isso me fascinava. Por isso até hoje sou perguntadeira, gosto de conhecer histórias de vida, me lambuzo com elas e vou aprendendo a ser melhor.
Por não fazer diferença das pessoas, eu me tornei a "diferente" em minha família e sofro rejeição. Sofrer não é a palavra correta, pois eu levo isso com bom humor.
O que eu sofro mesmo é ser discriminada por idade. Somente os jovens podem amar? A diferença de idade importa tanto numa relação de amor?
Se para mim não importa se é branco ou negro, católico ou evangélico, autônomo ou servidor público, formado na faculdade ou na vida, rico ou pobre, por quê a minha idade faz diferença?
Por quê alguém pode sentir vergonha de amar alguém mais velho?
Eu preciso descobrir essa resposta. Eu gosto de tudo preto no branco.