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terça-feira, 12 de julho de 2011

Idade de ser feliz?


Acompanho um blog chamado "O Corpo Perturbador". Nele são postados vídeos de entrevistas feitas com pessoas as mais diversas. São duas as perguntas: o que te perturba e o que é um corpo perturbador.
Tenho pensado muito sobre isso. A consciência do envelhecimento é uma coisa que me perturba. Vi que chegou mais rápido do que eu esperava e não me preparei o bastante para isso. Não me preparei para a reação das pessoas ante o envelhecimento e o preconceito contra a idade.
Uma amiga uma vez comentou comigo como ela tinha gostado de Los Angeles e São Francisco. Lá, disse-me ela, os idosos vivem e não estão nem aí. Vestem roupas coloridas, saem, vão a bares, se divertem, vão dançar e por aí vai. A gente sente que eles são mais felizes.
Alguns hão de dizer que aqui é assim também. Não é não. Aqui espera-se um comportamento para cada faixa etária. Os mais velhos não têm o direito de curtir e demonstrar sua alegria de viver sem serem tachados de ridículos.  Não estou defendo o direito de perderem a noção ou de serem inconvenientes. Defendo o direito de serem felizes e demonstrarem tal felicidade. Por quê os mais velhos devem ser contidos?
Programa de velho aqui é restaurante.  Se pessoas de uma certa idade vão a um barzinho, todos olham.  Se são homens, estão caçando menina nova. Se são mulheres, estão procurando garotões. É esse o comentário geral.  Como se barzinho fosse coisa só para jovem. Só falta pendurarem um cartaz com os dizeres: "Proibido entrada de maiores de 50 anos."
Um corpo perturbador para mim é essa carcaça que cobre minha alegria de menina, a intensidade dos sentimentos de uma adolescente e o prazer de uma mulher, como se ele (corpo) fosse o cartão de visita da minha essência.
Eu me recuso a deixar ser tolhida pela aparência do meu corpo. Meu corpo não deve dominar a minha alma ainda jovem. Eu aceito as rugas, a flacidez, a perda de massa muscular e meus cabelos brancos. Mas não aceito que retirem de mim a minha alegria de viver intensamente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Preto no branco


Para mim é tudo preto no branco. Eu não gosto de meias palavras, não gosto de hipocrisia e me enoja o preconceito. Qualquer tipo de preconceito: racial, idade, gênero, social, cultural e por aí vai.
Fui criada numa família cheia de regras de conduta, onde criança não participava de conversa de adultos. As pessoas conversavam em códigos familiares, ninguém que a ela não pertencesse não entendia nada. Todas as frases tinham duplo sentido, aquilo que se dizia e o que queria dizer.
Fui descobrir o que era menstruação aos 13 anos, quando pensei que o sangramento era de algum corte. Falar sobre sexo, nem pensar. Sobre diferenças, ai,ai,ai.
Para se tornar amiga de uma pessoa eu tinha que responder à tradicional pergunta "é filho de quem?"
Frequentava dois clubes que os sócios eram selecionados pelo bairro onde residiam, profissão e foto. Isso mesmo! Se a foto não condizia com uma das exigências dos clubes - somente brancos - a proposta era reprovada.
Conhecia um garoto mulato, filho adotivo de uma família abastada. A papelada estava toda encaminhada e  aprovada, a única pendência era a foto do filho do casal proponente. Ao recebê-la, o clube inventou uma desculpa e recusou a proposta.
Durante todo o meu período escolar, nunca tive colegas negros.
Estudava em um colégio de freiras avançadas que incentivavam muito a leitura, tanto dos clássicos como a dos escritores modernos. O colégio empregava  presidiários em regime semiaberto e as freiras trabalhavam em ações beneficentes tanto na penitenciária quanto em bairros de baixo poder aquisitivo e convidavam as alunas que quisessem ir. Com elas eu aprendi muito e através dessas ações pude conhecer o outro lado da moeda. Ajudava em creches, visitava os presos, participava de um encontro de jovens de uma igreja católica de periferia onde havia debates sobre temas de interesse dos adolescentes, havia grupos musicais, teatro, etc.
Foi nesse grupo de jovens o meu primeiro contato com negros, além das pessoas que trabalhavam como domésticas em minha casa.
Confesso da surpresa que eu tive na época de os verem como iguais. Tenho vergonha de contar isso, mas o termo "neguinho", "mulatinho" eram comumente usados pejorativamente em minha casa e eu sempre sem entender o porquê.
Conviver com esses jovens da periferia, no início de minha adolescência, abriu um novo mundo para mim.
Apesar de jovem eu entendia que tudo o que me fora ensinado em casa não era verdadeiro, comecei a contestar e a ser tachada de "esquisita".
Eu aprendi, por conta própria, a gostar das pessoas pelo o que elas são, por sua essência. E isso me fascinava. Por isso até hoje sou perguntadeira, gosto de conhecer histórias de vida, me lambuzo com elas e vou aprendendo a ser melhor.
Por não fazer diferença das pessoas, eu me tornei a "diferente" em minha família e sofro rejeição. Sofrer não é a palavra correta, pois eu levo isso com bom humor.
O que eu sofro mesmo é ser discriminada por idade. Somente os jovens podem amar? A diferença de idade importa tanto numa relação de amor?
Se para mim não importa se é branco ou negro, católico ou evangélico, autônomo ou servidor público, formado na faculdade ou na vida, rico ou pobre, por quê a minha idade faz diferença?
Por quê alguém pode sentir vergonha de amar alguém mais velho?
Eu preciso descobrir essa resposta. Eu gosto de tudo preto no branco.