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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Doida, eu?!?


Eu tenho o humor instável. Isso mesmo, eu sou bipolar. Mas não precisam se assustar, não! Não sou louca, não mordo e nem faço mal a ninguém. Apenas tenho os meus dias de euforia e outros de depressão.
A bipolaridade é uma doença maldita. As pessoas ainda têm muito preconceito em relação a ela. Imaginam que um bipolar é capaz de tudo, assim como um psicopata. Fico indignada quando assisto a uns programas de televisão, daqueles que passam à tarde, explorando a violência e o sofrimento das pessoas. Tem um programa que conta com a participação de um psicólogo que sempre, em qualquer crime comentado, fala de bipolaridade e, às vezes faz uma relação com os psicopatas.  Só que é exatamente ao contrário. Enquanto o psicopata é frio - destituído de sentimentos - o bipolar pode ser comparado a uma montanha russa. A bipolaridade é um transtorno de humor, que altera entre a euforia e a depressão.
Não sou psiquiatra e nem psicóloga, então não posso falar de doenças, quem sou eu para isso?!?
Eu vou falar de mim e da minha história.
Eu sempre achei que eu tinha alguma coisa porque eu chorava e ria demais. Era oito e oitenta. Isso mesmo, e, não ou. Mas não chegava a me incomodar, pensava que era espontaneidade de sobra.
Só fui ter a certeza de que padecia de algum mal após ter sofrido três assaltos no meu ambiente de trabalho, em menos de um ano, sendo que em um houve vítima baleada. Era muito desgastante: polícia, depoimentos, socorro às vítimas. Continuei a trabalhar normalmente até o terceiro, quando eu fiquei sob a mira de uma arma a menos de um metro da minha cabeça. No fim de semana seguinte, eu estava andando sozinha na orla muito movimentada, quando de repente eu tive o meu primeiro e único ataque de pânico. Era uma vontade de gritar imensa, um choro de lágrimas grossas sem motivo, um medo de continuar aonde estava como se algo de ruim fosse me acontecer e, no entanto, estava paralisada. Parecia que as ondas do mar iam me engolir, mas eu não conseguia sair do lugar e nem raciocinar.
A minha sorte foi que os contatos da agenda do celular eram codificados por números. Instintivamente, apertei qualquer número e um grande amigo atendeu. Eu não conseguia explicar nada e nem conversar com ele. Nem me lembro da conversa. Devo ter dito aonde estava, porque ele foi me buscar e me levou para um parque para andar no meio das árvores, beber água bem gelada e chorar...chorar muito, até me acalmar.
Na segunda-feira, me arrumei e fui trabalhar, mas não consegui entrar no prédio. Parece que eu tive um efeito retardado ao assalto.  Minhas pernas não obedeciam ao meu comando. Tive muito medo de ter outro ataque. Liguei para o meu gerente que me orientou a pegar um táxi e ir  imediatamente para o serviço médico da  empresa. 
A partir daí comecei a conhecer e a trabalhar a minha mente e a minha alma, sob o acompanhamento de uma terapeuta. 
No trabalho brincavam comigo que eu era louca. Meu gerente defendia:  - É louca mas tem juízo.

-----------------------------------------------continua------------------------------------------------                                                         em outro dia...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O quê vale mais?


Eu trabalhava em uma instituição financeira como gerente de uma carteira de grandes investidores. Era bem conceituada e premiada pela superintendência e também querida, respeitada e presenteada pelos meus clientes. Isso era o que mais me motivava.
O trabalho era muito estressante. Além de ter que manter os quase 500 clientes que compunham a carteira, num mercado à época turbulento, eu ainda tinha que captar novos investidores para cumprimento de metas e também  fazer investigação competitiva, para conhecer a concorrência.
Estudava muito, tinha que me manter super bem informada sobre o que acontecia pelo mundo e que pudesse afetar a economia e, consequentemente, o mercado financeiro.
Eu tinha horário para começar e nunca para terminar o meu dia de trabalho. Mas eu amava o que fazia.
Certa feita, me indicaram um cliente novo, meio esquisitão. Ele tinha uma grande soma com sete dígitos, em uma operação prefixada a prazo certo. Vencia no dia 19 de cada mês.
Na primeira vez que eu o atendi, chamei-o de senhor, como o protocolo exigia, mas ele logo me corrigiu: - Meu nome é Edvaldo. Não precisa do senhor.
- Pois não, senhor Edvaldo...
Ele não se conformava e me corrigia sempre, tentando buscar intimidade. Também fazia questão de negociar a operação pessoalmente. Não aceitava fazê-la por telefone e não suportava esperar a sua vez de ser atendido. Era muito ansioso.
Já conhecendo o seu perfil difícil, eu me preparava antecipadamente para atendê-lo e sempre o fazia com hora marcada, para evitar problemas.
Todas as vezes, sem nenhuma exceção, ele brigava por milionésimos de percentual e ameaçava retirar o seu dinheiro da instituição, caso eu não conseguisse a taxa que ele queria.
Eu tinha que recorrer à superintendência, que recorria à mesa diretora que centralizava nacionalmente esse tipo de operação. Era um desgaste tamanho e muito tempo dispendido. Mas eu sempre conseguia concluir de acordo com a pretensão dele. Ele ficava satisfeito e eu ficava exausta. Ao ir embora, sempre fazia algum elogio. A princípio sobre a minha capacidade, depois passou a ser pela inteligência, em seguida pelo físico e assim foi acontecendo e eu me esquivando.
Após alguns meses de atendimento ininterrupto, o Sr.Edvaldo me liga dizendo, sem nenhum rodeio, que queria passar um fim de semana comigo, em algum hotelzinho num lugar afastado, para me agradecer por tudo o que eu fazia por ele. Usou um palavreado de baixo-calão e extremamente ofensivo.  Fiquei pasma! Passei a ter horror a ele.
Os telefonemas não paravam, eu não sabia mais o que dizer para contê-lo. Entrei em pânico no dia 18 seguinte, já sabendo que no dia subsequente eu teria que encará-lo e não tinha como evitar.
Uma colega, também gerente de investimentos, percebeu o meu descontrole e veio conversar comigo. Completamente envergonhada, eu desabafei e me senti incompetente ao confessar que tinha perdido o controle da situação. Eu estava sendo assediada.
Demonstrando amizade, num meio competitivo e muitas vezes desleal, ela se prontificou a estar presente todas as vezes em que o tal Edvaldo comparecesse na agência.
De nada adiantou. Assim que chegava, no seu horário marcado, e com a minha colega a postos, ele pedia que ela desse licença porque a transação era confidencial. Ele se recusava a ser atendido em conjunto e continuava ameaçando retirar todo o seu investimento. Eu sofria moralmente com tudo aquilo e comecei a ficar abatida. Ninguém imagina como dói a alma,  só quem já passou por essa situação.
Foi então que um golpe foi dado. Em determinado dia 19, enquanto eu já estava tentando negociar a taxa para a operação do sr Edvaldo, meu chefe entra na minha sala e lhe diz calmamente:
- Bom dia, Sr Edvaldo. Eu vim lhe informar que hoje nós não vamos lhe conceder a taxa que o senhor espera. Só podemos lhe pagar tanto. E informou um percentual irrisório.
- Com essa taxa eu não fecho! Vamos aguardar que ela sempre consegue o que eu quero.
- O senhor não está entendendo, sr. Edvaldo. O senhor não vai ter o que quer. Vou mandar preparar um cheque administrativo para que o senhor possa levar o seu dinheiro, porque sei que não vai aplicar mais conosco.
Em poucos minutos entregou o cheque ao famigerado cliente, que foi-se embora sem contestar porque havia entendido tudo.
Nesse dia eu me senti orgulhosa de ser gerenciada por um grande homem e agradecida pela colega que discretamente me ajudou. Nenhum dos dois nunca comentou o assunto comigo. Não quiseram me constranger ainda mais.
Fiquei feliz ao voltar a ter a certeza de que a honra, a dignidade e o caráter ainda valem mais do que o dinheiro.


Fatalidade


Hoje soubemos da trágica notícia do falecimento de 3 irmãos ( 24, 26 e 30 anos) vítimas de um capotamento. Foi tão violento que as mortes foram instantâneas. A causa do capotamento não foi divulgada, mas sabe-se que eles não estavam alcoolizados. Eram os filhos de uma professora conhecida nossa.

Quero vender meu coração. Hoje ele não serve para nada.
Ele não pode sofrer por essa mãe, porque essa dor é inimaginável.
É só dela.
Nem há palavras para consolá-la. Haverá consolo?
Somos impotentes diante dos desígnios da vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sinal de alerta


Conheceram-se por acaso. Ela apenas acompanhava uma amiga que saia pela primeira vez com um conhecido, quando deram carona ao rapaz. Muito falante, foi logo dando a ideia: me deixem em casa para eu trocar de roupa, mais tarde eu vou me encontrar com vocês. Era extremamente vaidoso. Só usava roupas da marca italiana Dolce & Gabbana e perfume Dune de Christian Dior.
Chegou à boite com uma louraça, mas nem a apresentou. Parecia que era apenas um ornamento que levara. Passou a noite toda puxando conversando com Joyce, enquanto o casal de amigos engatava um romance. 
No dia seguinte o rapaz aparece no trabalho de Joyce com alguma desculpa para ser atendido por ela.  No meio da semana envia um buquê de flores com um cartão: "para a mulher que me impressionou muito".
No final de semana combinaram de sair juntos - os quatro. De repente ele diz à Joyce que estava apaixonado por ela, mas que existia uma pessoa. Sem entender direito, Joyce brincou dizendo que não era ciumenta.
A partir daí passaram a se encontrar sempre. Ele combinou com Joyce que ela sempre almoçaria no restaurante dele, que ficava perto do seu trabalho. Ela precisava engordar  uns quilinhos e ele iria cuidar dela. Havia uma mocinha que atendia os pedidos e ajudava a servir. Era sempre amável com Joyce e começaram a conversar. Em um desses papos, Joyce descobriu que ela a 'esposa' do Val, o dono do restaurante e seu recém namorado. 
Chamou Val para conversar e terminar o relacionamento, mas ele foi convincente. "Não existe mais nada entre nós. Ela está aqui apenas porque fui eu que a tirei de casa e tenho que levá-la e entregá-la aos pais novamente". A mocinha tinha 19 anos e desde os 16 ele a trouxera do interior para morarem juntos, a fim de assumir sua responsabilidade como seu 'devedor'.
Um dia, ele apareceu com o rosto machucado e o punho inchado. Sua explicação foi que a mocinha, inconformada por separar-se dele e ter que ir embora, tentou quebrar uma cadeira em sua cabeça. Daí os hematomas. Mas disse que estava tudo resolvido.
Era extremamente sedutor. Enchia Joyce de presentes românticos, cartõezinhos, ursinhos, perfumes caros. Preocupava-se com sua aparência, levava-a para fazer limpeza de pele, salões de beleza. Fazia questão de vê-la sempre produzida. Quando dormiam juntos levava café na cama em bandeja impecavelmente arrumada e enfeitada com flores. Ela se deixou levar pela sedução.
Algum tempo depois, chegou agoniado pedindo o carro de Joyce emprestado porque precisava levar o pai para a emergência de um hospital, o dele estava na oficina para revisão. Sumiu três dias. Joyce, preocupada, ligava sempre e o celular só caía na caixa de mensagens. Quando apareceu, trazia um grande buquê de flores e nenhuma notícia do estado do pai. Nem explicações.
Uma vez, ele tinha combinado com Joyce de passar o fim de semana fora. Como estava demorando muito, ela resolveu adiantar e ir para a casa dele encontrá-lo. Chegando lá viu uma turma pronta para sair com ele, inclusive a 'esposa'.  Joyce tentou arrancar o carro para não ser vista, mas não adiantou. Ele fez sinal para ela parar e pela janela pediu que tivesse calma, fosse para casa que mais tarde ele passaria por lá e explicaria tudo.
Apareceu 2 dias depois. Quando Joyce abriu a porta, ele de violão em punho cantava canções românticas. A explicação foi que a mocinha tinha voltado com umas amigas para buscar coisas que tinha esquecido em sua casa. Joyce cedeu às canções.
Em outra ocasião disse a Joyce que não poderia sair  porque estava bem mal, com a garganta inflamada. Sua voz era irreconhecível ao telefone. Ela foi a um barzinho com duas amigas e coincidentemente ele estava lá, em uma mesa rodeado de mulheres. E ainda fez cena de ciúme:  - O quê Joyce fazia ali? Ela o estava seguindo?
Dessa vez ela não engoliu. Disse-lhe que era a gota d´água e que não queria mais aquele relacionamento de falsidade. Ele prometeu mudar, disse que estava arrependido e que a amava de verdade. Joyce não se convenceu. Ligava para ela frequentemente e não era atendido.
Algum tempo se passou quando ele, completamente modificado, pediu para conversarem. Contou que quando adolescente era frequentador da igreja batista, onde aprendera a tocar violão para acompanhar os cultos. Tinha voltado a frequentá-la e estava dirigindo um grupo  de jovens. Havia se transformado. Usava camisa de manga comprida e calça social baratas. Falava escolhendo as palavras e em cada frase fazia uma citação bíblica. Porém, aos poucos foi se soltando, voltando a ser o que era. Ninguém segura um personagem por muito tempo.
Foram a uma festa de largo, como amigos. Estavam se divertindo, tudo corria bem até o momento em que um homem desconhecido passou tão perto de Joyce que os ombros se encostaram. Val começou uma cena de ciúme, queria bater no homem, gritava palavras ofensivas para ela. Joyce correu até um palanque policial próximo e Val foi atrás. Naquele lugar ela ficou protegida e ele se acalmou. Resolveram ir embora e dentro do carro começou a briga novamente. Os olhos dele pareciam duas bolas de fogo, seus braços agitavam-se para alcançá-la, mas ela conseguia se esquivar. Não deixou que ela entrasse em casa sozinha, forçando a porta. Ele foi diretamente para a cozinha e depois atrás de Joyce. Ele a derrubou ao chão e a imobilizou com as suas pernas. Dominada pela força, ela não podia fazer mais nada. O medo de morrer já tomava conta dela.
Val esbravejava, cuspia, batia em seu rosto com uma das mãos e com a outra empunhava uma faca. Sem saber como, quando viu a faca sendo direcionada ao seu peito, Joyce gritou repetidas vezes: VADE RETRO SATANÁS!
Inexplicavelmente, Val parou com a mão no ar e começou a respirar profundamente. Jogou o corpo para o lado, saindo de cima de Joyce, libertando-a. Aos poucos foi se acalmando e chorando muito adormeceu. Joyce aproveitou do seu sono e tremendo foi atrás de ajuda. Procurou a família dele e pediu que o retirassem de sua casa imediatamente e que ninguém a procurasse mais ou prestaria queixa na polícia.
Joyce compreendeu que desde o princípio de sua história o sinal de alerta havia piscado e que tudo isso aconteceu porque ela não tinha percebido.