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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Histórias da minha vida - 2


Até há alguns anos, pouco se falava em assédio moral. A palavra assédio remetia a uma conotação sexual. As pessoas não entendiam bem que uma pressão por cumprimento de metas é assédio, usar palavras ofensivas, fazer comentários pejorativos, exigir um desempenho para o qual você não foi preparado, entre outras tantas  coisas, configuram o assédio moral.
Na verdade, ao vestirmos a camisa de uma grande empresa esquecemos de nós mesmos e ficamos constrangidos ao reclamar uma situação de desconforto com medo de sermos taxados de implicantes ou de causadores de problemas. Hoje muita coisa mudou. Se um chefe dá uma simples olhada no relógio e em seguida para o rosto do funcionário que chega minutos atrasado, ele o está assediando moralmente. Pode parecer exagero, mais não é não. A maioria das grandes empresas trabalham com ponto eletrônico. Os minutos atrasados serão descontados de sua folha de pagamento. Cabe ao superior, caso o funcionário seja reincidente, chamá-lo e conversar civilizadamente. Isto é o correto.
Hoje eu compreendo tudo isso. Mas na época em que o meu gerente começou a me mandar contratar operações irregulares para seu benefício próprio, a serem creditadas em contas de laranjas, eu não sabia como agir. Ao me negar a fazê-las, era repreendida cruelmente e em termos chulos: - Será que eu vou precisar de um macho para gerenciar a sua carteira? Você não tem culhão por isso não assina esse contrato?
Não era apenas eu que sofria essa pressão. Existiam outras pessoas envolvidas também. Íamos trabalhar insatisfeitos, com os nervos aos frangalhos. Temíamos novas ordens, evitávamos ao máximo correr riscos e, portanto, tínhamos que nos empenhar mais para buscar dentro das normas tudo o que fosse possível fazer e também a justificativa para cada ação.
Os contratos eram assinados pelo gerente da carteira. O deferimento e a liberação dos valores eram efetuados via sistema. Era obrigatório dois comissionados com cartão e senha para a transação. O tal gerente superior nunca assinava, não deferia e nem liberava os valores, para não ficar diretamente ligado ao que estava sendo feito. Mas as ordens sempre partiam dele. Para alguns funcionários sem função específica, o gerente os colocava em algum cargo em caráter de substituição e prometia a efetivação caso mostrassem seu valor. O "valor", traduzindo em miúdos, significava "faça o que eu mando, sem perguntas". Iludidos, muitos caíram nessa tentação, mesmo até por inexperiente e despreparo. 
Não tínhamos como provar o que estava acontecendo. As ordens eram dadas verbalmente, por telefone e sob ameaças. Nunca feitas pessoalmente, para não haver testemunhas. Precisávamos da comprovação do envolvimento do gerente e do seu enriquecimento ilícito. Sabíamos de todo o esquema, mas não podíamos falar abertamente, porque era difícil provar. Era muito bem montado.
O mundo parecia que ia desabar sobre nossas cabeças. Mais de dois anos trabalhando sobre uma corda bamba.
Das pessoas diretamente envolvidas, eu era a que tinha menos a perder. Minha carreira era a mais longa, eu tinha estabilidade, acreditava ter amizades na superintendência, meus filhos já estavam praticamente  criados e eu estava exaurida de tudo. Não aguentava mais. 
Conversei com um e com outro e tomei a minha decisão: vou denunciar, seja o que Deus quiser. Esta decisão que eu tomei mudou, mais uma vez, todo o rumo de minha vida.
Só que eu achava que estava preparada para o que viria a seguir. E não estava. 

-----------------------------------------continua-----------------------------------------------------
                                                    em outro dia...

Histórias da minha vida


Eu já contei que passei por três assaltos em menos de um ano. No último, sob a mira de uma arma, a menos de um metro da minha cabeça. Eram cinco assaltantes. Um apenas ficou "tomando conta" do grupo de funcionários que eles reuniram em um só local, todos sentados. Ao meu lado estava uma colega que rezava baixinho, sussurrando. O assaltante tinha avisado energicamente que devíamos ficar calados e de cabeça baixa, ninguém deveria olhar para ele, mas a colega não parava com as suas orações. Isso irritou o moço, que se aproximou mais e ameaçou atirar. Naquele momento senti que não éramos nada. A vida estava por um fio e não dependia de nós. Qualquer vacilo ele atiraria. Graças a Deus, esvaziaram o cofre com rapidez, o assalto acabou em poucos minutos e não fizeram vítimas.
Precisei de apoio profissional para me restabelecer. Fui encaminhada para uma psicanalista que seguia a linha freudiana, daquela que a gente deita num divã, voltado de costas para a médica e começa a falar o que vem à cabeça. Detestei! Eu gosto de conversar olhando nos olhos. Para mim essa terapia foi terrível, só fui em umas três sessões e senti que não precisava mais. Superaria sozinha. O que eu estava tendo era "piti" e passaria logo. 
Trabalhei nesse local por mais uns três anos, até que um dia me bateu uma vontade de mudar de ares. Já fazia onze anos que eu estava ali. Tinha uma filial que seria inaugurada em breve e eu sabia que iriam precisar de uma funcionária com o meu perfil. Pedi para ser remanejada e fui viver uma nova etapa em minha vida. Larguei a comodidade de onde eu estava para enfrentar novos desafios.
Assim que eu tomei posse, o gerente foi muito solícito comigo e eu, acostumada com uma carteira de quase 500 investidores, não achei estranho ele me mandar encarteirar muitos amigos pessoais dele. Afinal, era uma dependência recém inaugurada que precisava crescer rápido para se manter.
Sempre lidei com o  mercado financeiro em operações de investimento - era a minha especialidade - mas também tinha experiência com operações de crédito, inclusive empréstimos para financiamentos agropecuários, porque já havia trabalhado em cidade do interior.
Uma filial localizada em um grande shopping não é adequada para operações rurais. Mas comecei a contratar algumas obedecendo a ordem do gerente. 
Só fui perceber que havia alguma coisa errada quando tive que me ausentar, inesperadamente, por 45 dias, para acompanhar meu pai no hospital, pois ele iria se submeter a uma cirurgia cardíaca. Usei minhas férias e 15 dias de licença-prêmio a que eu tinha direito. Não cometi nenhuma irregularidade.
No dia em que eu retornei ao trabalho, meu chefe já me esperava e, na frente de todos os funcionários começou a falar alto que não precisava mais de mim, que eu era irresponsável porque tinha abandonado minha carteira de clientes e que tínhamos perdido grandes oportunidades de negócios porque eu não havia treinado a minha substituta o suficiente para fazer as operações rurais. Me chamou de incompetente,  aos berros. Não vi motivos para esse rompante e não tive oportunidade de me defender. A porta abriu para o público. Coloquei minha máscara de sorriso e fui atender as pessoas que chegavam. 
Eu tenho a sorte de sempre encontrar boas pessoas no meu caminho. O gerente administrativo veio até mim, segurou minhas mãos dando força.
Naquele dia eu entendi que minha jornada não iria ser fácil. Alguma coisa estava para acontecer.
Depois eu te conto... 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O quê vale mais?


Eu trabalhava em uma instituição financeira como gerente de uma carteira de grandes investidores. Era bem conceituada e premiada pela superintendência e também querida, respeitada e presenteada pelos meus clientes. Isso era o que mais me motivava.
O trabalho era muito estressante. Além de ter que manter os quase 500 clientes que compunham a carteira, num mercado à época turbulento, eu ainda tinha que captar novos investidores para cumprimento de metas e também  fazer investigação competitiva, para conhecer a concorrência.
Estudava muito, tinha que me manter super bem informada sobre o que acontecia pelo mundo e que pudesse afetar a economia e, consequentemente, o mercado financeiro.
Eu tinha horário para começar e nunca para terminar o meu dia de trabalho. Mas eu amava o que fazia.
Certa feita, me indicaram um cliente novo, meio esquisitão. Ele tinha uma grande soma com sete dígitos, em uma operação prefixada a prazo certo. Vencia no dia 19 de cada mês.
Na primeira vez que eu o atendi, chamei-o de senhor, como o protocolo exigia, mas ele logo me corrigiu: - Meu nome é Edvaldo. Não precisa do senhor.
- Pois não, senhor Edvaldo...
Ele não se conformava e me corrigia sempre, tentando buscar intimidade. Também fazia questão de negociar a operação pessoalmente. Não aceitava fazê-la por telefone e não suportava esperar a sua vez de ser atendido. Era muito ansioso.
Já conhecendo o seu perfil difícil, eu me preparava antecipadamente para atendê-lo e sempre o fazia com hora marcada, para evitar problemas.
Todas as vezes, sem nenhuma exceção, ele brigava por milionésimos de percentual e ameaçava retirar o seu dinheiro da instituição, caso eu não conseguisse a taxa que ele queria.
Eu tinha que recorrer à superintendência, que recorria à mesa diretora que centralizava nacionalmente esse tipo de operação. Era um desgaste tamanho e muito tempo dispendido. Mas eu sempre conseguia concluir de acordo com a pretensão dele. Ele ficava satisfeito e eu ficava exausta. Ao ir embora, sempre fazia algum elogio. A princípio sobre a minha capacidade, depois passou a ser pela inteligência, em seguida pelo físico e assim foi acontecendo e eu me esquivando.
Após alguns meses de atendimento ininterrupto, o Sr.Edvaldo me liga dizendo, sem nenhum rodeio, que queria passar um fim de semana comigo, em algum hotelzinho num lugar afastado, para me agradecer por tudo o que eu fazia por ele. Usou um palavreado de baixo-calão e extremamente ofensivo.  Fiquei pasma! Passei a ter horror a ele.
Os telefonemas não paravam, eu não sabia mais o que dizer para contê-lo. Entrei em pânico no dia 18 seguinte, já sabendo que no dia subsequente eu teria que encará-lo e não tinha como evitar.
Uma colega, também gerente de investimentos, percebeu o meu descontrole e veio conversar comigo. Completamente envergonhada, eu desabafei e me senti incompetente ao confessar que tinha perdido o controle da situação. Eu estava sendo assediada.
Demonstrando amizade, num meio competitivo e muitas vezes desleal, ela se prontificou a estar presente todas as vezes em que o tal Edvaldo comparecesse na agência.
De nada adiantou. Assim que chegava, no seu horário marcado, e com a minha colega a postos, ele pedia que ela desse licença porque a transação era confidencial. Ele se recusava a ser atendido em conjunto e continuava ameaçando retirar todo o seu investimento. Eu sofria moralmente com tudo aquilo e comecei a ficar abatida. Ninguém imagina como dói a alma,  só quem já passou por essa situação.
Foi então que um golpe foi dado. Em determinado dia 19, enquanto eu já estava tentando negociar a taxa para a operação do sr Edvaldo, meu chefe entra na minha sala e lhe diz calmamente:
- Bom dia, Sr Edvaldo. Eu vim lhe informar que hoje nós não vamos lhe conceder a taxa que o senhor espera. Só podemos lhe pagar tanto. E informou um percentual irrisório.
- Com essa taxa eu não fecho! Vamos aguardar que ela sempre consegue o que eu quero.
- O senhor não está entendendo, sr. Edvaldo. O senhor não vai ter o que quer. Vou mandar preparar um cheque administrativo para que o senhor possa levar o seu dinheiro, porque sei que não vai aplicar mais conosco.
Em poucos minutos entregou o cheque ao famigerado cliente, que foi-se embora sem contestar porque havia entendido tudo.
Nesse dia eu me senti orgulhosa de ser gerenciada por um grande homem e agradecida pela colega que discretamente me ajudou. Nenhum dos dois nunca comentou o assunto comigo. Não quiseram me constranger ainda mais.
Fiquei feliz ao voltar a ter a certeza de que a honra, a dignidade e o caráter ainda valem mais do que o dinheiro.