quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Histórias da minha vida


Eu já contei que passei por três assaltos em menos de um ano. No último, sob a mira de uma arma, a menos de um metro da minha cabeça. Eram cinco assaltantes. Um apenas ficou "tomando conta" do grupo de funcionários que eles reuniram em um só local, todos sentados. Ao meu lado estava uma colega que rezava baixinho, sussurrando. O assaltante tinha avisado energicamente que devíamos ficar calados e de cabeça baixa, ninguém deveria olhar para ele, mas a colega não parava com as suas orações. Isso irritou o moço, que se aproximou mais e ameaçou atirar. Naquele momento senti que não éramos nada. A vida estava por um fio e não dependia de nós. Qualquer vacilo ele atiraria. Graças a Deus, esvaziaram o cofre com rapidez, o assalto acabou em poucos minutos e não fizeram vítimas.
Precisei de apoio profissional para me restabelecer. Fui encaminhada para uma psicanalista que seguia a linha freudiana, daquela que a gente deita num divã, voltado de costas para a médica e começa a falar o que vem à cabeça. Detestei! Eu gosto de conversar olhando nos olhos. Para mim essa terapia foi terrível, só fui em umas três sessões e senti que não precisava mais. Superaria sozinha. O que eu estava tendo era "piti" e passaria logo. 
Trabalhei nesse local por mais uns três anos, até que um dia me bateu uma vontade de mudar de ares. Já fazia onze anos que eu estava ali. Tinha uma filial que seria inaugurada em breve e eu sabia que iriam precisar de uma funcionária com o meu perfil. Pedi para ser remanejada e fui viver uma nova etapa em minha vida. Larguei a comodidade de onde eu estava para enfrentar novos desafios.
Assim que eu tomei posse, o gerente foi muito solícito comigo e eu, acostumada com uma carteira de quase 500 investidores, não achei estranho ele me mandar encarteirar muitos amigos pessoais dele. Afinal, era uma dependência recém inaugurada que precisava crescer rápido para se manter.
Sempre lidei com o  mercado financeiro em operações de investimento - era a minha especialidade - mas também tinha experiência com operações de crédito, inclusive empréstimos para financiamentos agropecuários, porque já havia trabalhado em cidade do interior.
Uma filial localizada em um grande shopping não é adequada para operações rurais. Mas comecei a contratar algumas obedecendo a ordem do gerente. 
Só fui perceber que havia alguma coisa errada quando tive que me ausentar, inesperadamente, por 45 dias, para acompanhar meu pai no hospital, pois ele iria se submeter a uma cirurgia cardíaca. Usei minhas férias e 15 dias de licença-prêmio a que eu tinha direito. Não cometi nenhuma irregularidade.
No dia em que eu retornei ao trabalho, meu chefe já me esperava e, na frente de todos os funcionários começou a falar alto que não precisava mais de mim, que eu era irresponsável porque tinha abandonado minha carteira de clientes e que tínhamos perdido grandes oportunidades de negócios porque eu não havia treinado a minha substituta o suficiente para fazer as operações rurais. Me chamou de incompetente,  aos berros. Não vi motivos para esse rompante e não tive oportunidade de me defender. A porta abriu para o público. Coloquei minha máscara de sorriso e fui atender as pessoas que chegavam. 
Eu tenho a sorte de sempre encontrar boas pessoas no meu caminho. O gerente administrativo veio até mim, segurou minhas mãos dando força.
Naquele dia eu entendi que minha jornada não iria ser fácil. Alguma coisa estava para acontecer.
Depois eu te conto... 

9 comentários:

Christian V. Louis disse...

Eu nunca fui assaltado, mas meu pai já e também com uma arma apontada pra cabeça, me disse ele que não há situação de impotência maior. O pior na sua situação acho que foi a histeria de sua amiga, ela perdeu a noção que poderia matar todo mundo ali com sua rezadeira neurótica. Sabemos que nestas situações é complicado manter o mínimo de auto-controle, no entanto, é necessário, ao menos o mínimo. Obedecer e se calar, fazer tudo o que a pessoa que está com o poder, no caso, a arma, ordenar.
Vejo que já passou maus bocados em sua vida profissional, por sorte, em todas estas ocasiões ruins, você não conseguiu desacreditar de tudo por ter sempre uma pessoa boa a lhe dar forças.

Célia disse...

CHEFIAS... Descontrole... E, não me venha com essa de que não se pode misturar trabalho com problemas familiares... Quando gestora, sempre acolhia funcionários "problemáticos ou que estivessem numa fase negativa em suas vidas"... em sala separada e deixava-os desabafar de tudo o que lhes oprimia... Como isso sempre dava resultado! Em casos de doença, a EQUIPE toda assumia a responsabilidade até o retorno do titular... Acho isso tudo falta de profissionalismo e humanidade! É o colocar-se no lugar do outro!
Abraço, Célia.

Christian V. Louis disse...

Não chegou nada em anônimo no meu blogue não, penso que deu erro. Tente outra vez, por favor, se puder.

CEM PALAVRAS disse...

Christian,
A história ainda está no começo. Se você quiser, acompanhe. É a minha história real de vida.
beijos

CEM PALAVRAS disse...

Célia,
Uma vez me mandaram um funcionário com problemas de alcoolismo e dívidas, que ninguém queria. Trabalhando em equipe, conseguimos solucionar administrar o seu descontrole financeiro, causador dos demais. Lidávamos com ele como GENTE e não apenas um número de matrícula.Ele foi recuperado. Qualquer dia eu conto essa história.
muitos beijos

tecas disse...

Identifico-me no seu bem elaborado texto.Já fui assaltada inúmeras vezes, ao ponto de mudar de residência. Ser vitima do amigo do alheio...que assalta por vícios ou mania e raramente por fome!Vou voltar para conhecer a sua história.
Cheguei ao seu blog por o blog de uma amiga.
Saudações poéticas.

@ Escritora disse...

Ser assaltado nos dá uma sensação terrível de impotência, também senti isso na pele.

Abçs

CEM PALAVRAS disse...

Tecas,
Bem vinda, esteja á vontade para voltar sempre.
bjs

CEM PALAVRAS disse...

@escritora,
neste tipo de assalto a gente vê a vida por um fio.
bjs