terça-feira, 12 de julho de 2011

Casado (sss)


Saíamos sempre os três juntos. Eu, ele e uma amiga minha. Eu o acompanhava, ela me fazia companhia. Ele trabalhava, eu e ela batíamos papo. Assim foi por muitos anos.
Um dia ela ficou doente. Precisou entrar em licença-saúde. Até o barulho do mar a incomodava e não a deixava dormir. Ele sugeriu fazermos pequenas viagens, de dois ou três dias, para ajudá-la na sua recuperação. Fizemos muitas. Visitamos pequenas cidades, molhamos os pés em rios, em cachoeiras, andamos a cavalo, fizemos passeios de barco.  Fomos a belas praias, ilhas e montanhas.
Os dois foram ficando cada vez mais amigos. Nessas viagens, à noite enquanto eu dormia, os dois tomavam banhos de piscina nos hotéis, ou banho de mar. Bebiam cerveja, jogavam conversa fora e se divertiam muito. Na manhã seguinte, em meio a risadas, contavam as travessuras da noite anterior.
Começou assim a brincadeira do casado (sss). Tudo o que ele ia fazer ela  o lembrava de que ele era  casado (sss).
- Não me deixe de fora, não! Você é casado (sss), ela brincava.
Nos tornamos inseparáveis. Dividíamos tudo, nossas preocupações, nossas tristezas e alegrias. Só não dividíamos a cama.
Houve um tempo em que eu tive que me afastar para fazer umas viagens. As viagens eram cada vez mais frequentes e mais longas. Ela ficou tomando conta dele.
Continuavam os papos pela madrugada a fora e eu nunca perguntei o que tanto conversavam.
Um dia, ela me disse que eu precisava segurar o "meu homem". Que eu o estava deixando de lado, ficando fora tempo demais. Ela me dizia o quanto ele era bom, o quanto a havia ajudado.
Contei a ela dos tantos "casos" que eu fiquei sabendo que ele teve e o quanto isso me magoou. Comentei que já não fazia tanta diferença porque eu já percebia que ele não estava mais tão interessado assim. Alguma coisa havia mudado. Ela me pedia que eu relevasse, falava do amor que ele sentia por mim, amor que ela percebia  enquanto conversavam.
Eu dizia que para mim ele não mais falava de amor. Ela tentou de tudo para me convencer do quanto ele precisava de mim. O quanto era bonito ver nós dois juntos, que pelo olhar que nós trocávamos havia muito ainda a ser vivido e compartilhado. Pediu que eu não desistisse. Eu não lhe dei atenção.
Eu e ele fomos nos afastando, já não havia mais diálogo. Ele e ela continuavam conversando.
Tempos depois ele partiu, saiu da minha vida. Eu e ele não nos falávamos mais, não sabíamos mais um do outro. Ela continuou a amizade e acompanhou as mudanças na vida dele.
Anos antes, havíamos ido a um terreiro de candomblé. Soubemos que eu sou filha de Nanã, ele de Omulu e ela de Iemanjá. Eu, que agora remendo retalhos para entender o que aconteceu com a minha vida para  tentar reconstrui-la, lembrei-me daquela visita ao terreiro e fui pesquisar sobre os três orixás. Confesso que me surpreendi:


"Nanã é a deusa mais velha entre todos os orixás. É a mãe de Omolu. Sua atitude costuma ser severa, mas é determinada naquilo que se propõe a fazer. Este Orixá oferece segurança e jamais aceita uma traição"

"Omolu é considerado o médico dos pobres e atende as pestes em geral.  Insatisfação é a principal característica dos filhos deste Orixá. Mesmo que sua vida corra na mais perfeita tranquilidade, eles nunca estão satisfeitos"

"Iemanjá  é sensível e sensual,  capaz de compreender o mal que aflige o coração das pessoas, dando-lhes o conforto de que necessitam. A rainha do mar é também considerada a protetora da maternidade."

Segundo a história do candomblé, Omolu teria sido criado por Iemanjá numa gruta, pois sua mãe Nanã o havia abandonado por ter muitas feridas pelo corpo. Outra versão é a de que Nanã o deixou na beira de um rio para que suas feridas fossem lavadas pela correnteza, mas nunca teve a intenção de abandoná-lo. Iemanjá o acolheu.

Criada numa família católica fervorosa, tenho que admitir: há mais coisas entre o céu e a terra...

3 comentários:

Mariane Braga disse...

Olá! Obrigada pelo comentário em meu blog! Fico feliz que tenha gostado da dica! É bom lermos sim, quando tiver a oportunidade aproveite, hehehe!

Uma excelente semana!

Mônica disse...

EU achei que ela ia rouba-lo de voce. Ainda bem que não. Eram tres amigos.
Com carinho sua amiga Monica

Edu O. disse...

Meu Xangô vive em pé de briga. Até canso.