sábado, 13 de agosto de 2011

Strawberry Fields Forever

                                           (foto baixada do site http://www.nycgovparks.org) 

Eu estava me preparando para ir pela primeira vez a Nova Iorque e perguntei ao meu filho o que ele queria que eu trouxesse de presente. Quero uma foto de Strawberry Fields, ele me pediu. Fã dos Beatles, como eu, e principalmente de John Lennon, não poderia deixar de fazer a sua vontade - achei que seria fácil.
Naquela época eu ainda não tinha internet e o acesso a informações era bem difícil. Precisávamos de livros, enciclopédias, jornais, revistas, tudo com pequena vida útil. Não cheguei a pesquisar nada, sabia apenas que se tratava de uma homenagem a Lennon e que ficava no Central Park.
Lá fui eu, com um grupo que iria para fazer compras. Quem viaja para fazer compras não se interessa muito por turismo e nem por cultura, o tempo é corrido e curto. Andávamos todos os dias rua por rua e íamos enchendo as malas.
À  noite, enquanto as andarilhas descansavam, eu ia a Broadway  e realizei alguns sonhos. Assisti ao Fantasma da Ópera, Cats, Smokey Joe's Cafe, A Bela e a Fera. Consegui fugir um dia à tarde e visitei o MoMA. Chorei ao ver à distância de um metro as obras de Van Gogh, meu preferido.
Somente na véspera de virmos embora, à noite, lembrei-me do presente do meu filho. Apesar da mala cheia de tênis, perfume, relógio, câmera, casacos, camisetas, tudo o que um adolescente escolheria, nela não havia o que  ele tinha me pedido.
O ônibus que nos levaria ao aeroporto JFK partiria do hotel na manhã seguinte às nove horas. Às seis  eu já estava num táxi e como ninguém quis ir comigo, fui aventurar-me sozinha para realizar minha promessa.
Com o meu inglês 'macarrônico' pedi ao motorista que me levasse ao Central Park, nas proximidades do edifício Dakota. Lembro-me que era um negão típico americano, imenso, parecia até um jogador da NBA. Muito sorridente, me perguntou de onde eu era e ao ouvir Brasil, começou a arranhar um espanhol pior do que o meu inglês, puxou conversa e  pediu licença para  ligar o rádio. Escolheu a música e aumentou o som. A todo volume, fomos ouvindo um reggae e ele se sacudindo todo, dançava feliz com a homenagem que prestava a uma brasileira. Nem tive  como solicitar informações sobre o meu destino. Desci em frente ao prédio, bati uma foto, atravessei a rua e entrei apressada no parque.
No meu raciocínio, a homenagem a Lennon deveria se localizar nas proximidades do edifício onde ele morava. E eu estava correta, pouco adiante eu vi a placa. Olhei para um lado e outro incrédula. Era outono, fazia muito frio e as árvores estavam meio secas e desfolhadas. A grama e a vegetação amareladas, sem vida.
- Não é possível que eu esteja aqui sozinha no Central Park, quase escuro ainda, a ponto de perder o avião, só para tirar uma foto dessa placa. Isso é que é o tal de 'Strawberry Fields'? Somente isso, uma placa comum? 
Pela grandeza do artista e pela minha paixão de fã, eu imaginava uma homenagem bem maior, um grande monumento, sei lá o que eu queria encontrar. 
Só então fiquei sabendo que uma área de 2,5 acres tinha recebido esse nome e que havia mais adiante, no chão, um mosaico preto e branco com o nome de 'Imagine".
Bati mais umas duas fotos e fui embora para o hotel, meio desapontada, porém com a sensação do dever cumprido.

                                           (foto baixada do site http://www.nycgovparks.org)              

Quando desembarquei no Brasil, meu filho me esperava no aeroporto e perguntou logo sobre a foto. Ficou ansioso por dois dias esperando a revelação. Ao contrário de mim, ele não se decepcionou com  'Strawberry Fields" porque eu já havia explicado a ele como era. A sua decepção foi comigo, péssima fotógrafa, que bati as fotos todas desfocadas... 
Tantos anos se passaram e há uma semana eu o chamei para mostrar novamente 'Strawberry Fields'. Ele veio sorrindo, já pensando o que seria dessa vez. Abri o notebook e mostrei este vídeo. Ele nunca o tinha visto e ficou encantado. Finalmente eu me redimi.

DUOFEL - Duo formado pelos violonistas Fernando Melo (alagoano) e Luiz Bueno (paulista), ensaiando no estúdio da Trama.

8 comentários:

Eloah disse...

O que uma mãe não faz pelos filhos.Fiquei eu aqui imaginando você tentando cumprir o prometido.Valeu a intenção amiga!O que vale é o amor que te levou aquela praça e as fotos desfocadas.Hoje em dia tecnologia está ai para facilitar.Adoro ler teus contos.Estou aqui diariamente.Bjs e um bom domingo.Eloah

CEM PALAVRAS disse...

Eloah querida,
Guardo aquelas fotos até hoje. Tentei escaneá-las mas não deu. Só apareceram borrões, rsss
Mas como você mesma disse, o que vale é a intenção.
Também não passo um dia sem visitá-la.
Muitos beijos

Artes e escritas disse...

As fotos em mega pixels automáticas são fáceis de fazer, basta um click. Na próxima viagem você pode levar uma. Um abraço, Yayá.

CEM PALAVRAS disse...

Imagine, Yayá!
Hoje a gente tira foto até de espirro, rsss
Na época a máquina era analógica e mesmo com filme de 400ASA eu consegui a proeza de tremer as mãos.
Acho que foi a pressa, rssss
beijos

Anônimo disse...

Querida, eu bati algumas fotos, achei bonita a homenagem e já sabia que era daquele jeito. Se não soubesse, acho que me desapontaria tbm. Agora, Duofel é lindo demais. Eu vi esse show aqui na Fenac, linda lembrança, lindo post
bjs

CEM PALAVRAS disse...

Wal,
Você acredita que eu não conhecia Duofel? Pelos meus lados aqui a gente não conhece. É uma pena!
beijos

Edu O. disse...

Que violões maravilhosos são esses?!!!!!! porraaaaa!!! lindo!!! e tua história daria um curta-metragem delicioso.

CEM PALAVRAS disse...

Edu,
Direitos de filmagem cedidos para você. Só que tem que eu me levar também levar pra N.Y.ok?
Cedo também as fotos, rsss
beijos, meu fio