terça-feira, 8 de novembro de 2011

Amor de mãe



Márcia buscava nos retratos antigos uma resposta. Abriu a velha maleta forrada de couro trancada à chave. O cheiro que dela exalou demonstrava há quanto tempo não tinha sido aberta. Não havia nenhuma ordem nesses guardados. Era um amontoado de fotografias misturadas por várias épocas e de várias gentes. Em comum só tinham o cheiro e a cor amarelada pelo tempo.
Sempre quisera entender o vazio que sentia e não sabia definir o porquê. Sempre pensou sobre isso e reviveu toda a sua trajetória. Nunca achou uma explicação clara para o considerado descaso. 
Márcia sempre se justificou dizendo que ela conseguia separar a figura da mãe e a do ser humano. Admirava muito a pessoa que a mãe era: forte, inteligente, guerreira, avançada no seu tempo. Uma mulher que sempre se atualizava, que batalhou muito na vida e teve sucesso profissional. Era também uma ótima administradora do lar. Sempre teve duas empregadas sob o seu comando para que a casa ficasse sempre em ordem.
Quanto às mães, no geral, Márcia nunca conseguia entender por que as pessoas se chocavam quando ouviam qualquer comentário acerca delas. Por que as mães são intocáveis? Por que a redoma? Por que a ofensa maior é xingar a mãe?
Para Márcia, a imagem de mãe era a de uma pessoa como outra qualquer, sem nenhuma deferência a mais.
Mãe é um ser humano, com erros e acertos. Via em sua mãe os defeitos e qualidades como em qualquer outra pessoa. Por que só ela enxergava assim se todas as outras mães eram consideradas quase como santas. Quantas vezes ouviu alguém dizer "eu morro por minha mãe" ou "por minha mãe sou capaz de tudo". Para Márcia isso sempre soou como um exagero.
Remontou à primeira infância e não lembrava nem de um vestígio da sua mãe. Desde a sua alfabetização até o segundo grau, sempre estudou sozinha. Ela mesma assinava a caderneta escolar quando vinha algum aviso para a mãe. Tudo o que aprendeu foi nos livros. Não se recordava de nenhuma conversa em particular ou de alguma orientação recebida - somente cobranças. Presença na escola? Jamais. Nem em dias de festa. Abraços, beijos, carinhos, parabéns - era querer demais!
O seu pai a levava e buscava na escola. Depois em festinhas e casas de amigas. Quando ela ia sair, ele sempre dava palpites sobre sua roupa, queria ver Márcia bonita e a elogiava. Nas comemorações em família, Márcia sempre estava sentada ao lado dele. Pai e filha eram muito unidos. Teve um pai amoroso.
Márcia revirou todos os retratos da maleta e não achou o que procurava. Precisava de apenas um para mostrar que estava enganada. Viu retratos de todas as épocas e nenhum com a sua mãe. Conseguiu localizar os do seu primeiro aninho. Foram tiradas muitas fotos e em algumas Márcia estava no colo da madrinha, nas restantes no colo do pai.
Já não precisa procurar mais, porque nada seria encontrado. Não havia provas de que estava equivocada. Sua busca havia terminado.
Dizem que mãe só existe uma.
Márcia não teve nenhuma.
    
                                                     Aos nossos filhos  - Elis Regina
                                                                                              (Ivan Lins)

15 comentários:

Célia disse...

Quantas Márcias na vida! Mãe não é protótipo de santidade, NÃO!!
As mães do coração, muitas vezes são mais maternais que as de útero!
Abraço, Célia.

Eloah disse...

Querida, teu texto faz-me lembrar que nem todas as pessoas são perfeitas, ou iguais . Compreender o coração de alguém, quando esta pessoa se fecha para o mundo é impossível, mas constatar as fissuras que ocasiona sempre é possível.Perdoar e aceitar é o nosso difícil papel.
Amiga, valeu pela reflexão!Tenhas um final de semana abençoado.Bjs Eloah

Nathy Costa disse...

amei seu blog vou seguir
aqui tem um texto que gosto muito
se der leia.
bjo!

http://paraneura.blogspot.com/2011/09/para-os-ultimos.html

✿ chica disse...

Lindo e faz refletir...Quantas mães nunca estiveram presentes MESMO estando juntas... Ou , quantas apenas NA HORA DA FOTO... Não é???
beijos,chica

CEM PALAVRAS disse...

Célia,
Eu, que sou mãe, acredito que não faria diferença para mim se eu não os tivesse parido. Claro que eu adorei tê-los gestado, mas se não tivesse sido assim, eu os amaria da mesma forma, porque tenho outros filhos do coração.
muitos beijos

CEM PALAVRAS disse...

Eloah, querida
Entender as pessoas é muito difícil, às vezes não entendemos a nós mesmos.
O que se passa na alma de cada um?
Descobrir os porquês é trabalhoso, porém necessário para sermos melhores.
muitos beijos

CEM PALAVRAS disse...

Nathy,
depois dou uma passadinha por lá.
Bem vinda!
bjs

CEM PALAVRAS disse...

Chica,
Tadinha da Márcia, nem na foto... Buscou tanto esse retrato junto com ela para se convencer de que estava enganada...Mas é a vida.
muitos beijos

Mônica disse...

Cem palavras
Eu acho que se minha mãe fosse como a de Marcia eu teria morrido de desamor.
com amizade e carinho de Monica

Mery disse...

Pois eu digo: "Mãe, mesmo ausente está ...junto*, falo por minha mãe já falecida, lembrei dela ao ler teu "texto desabafo de Marcia"... para muitas mães* é tão difícil estar mais perto como gostariam.*); e é tão difícil ser santas*...
Esse mundo é cruel!
Desnecessário dizer que a música é adequada ao tema, e muito linda.
Gostei de aparecer por aqui, me fez um bem imenso...obrigada por partilhar conosco, abraços de afeto.
Mery*

CEM PALAVRAS disse...

Moniquinha,
Pelo seu blog a gente percebe que você pertence a uma família bastante amorosa e que você é muito feliz.
muitos beijos

CEM PALAVRAS disse...

Mery,
Estar junto ou perto não significa presença. Quantas pessoas perderam os seus entes queridos e ainda os sentem bem presentes em suas vidas e em seus corações.
Bom você ter vindo por aqui.
muitos beijos

Karla Thayse Mendes disse...

Agradeço a visita, muito bom te receber por lá viu! Volte sempre.

Aqui pe um encanto!

Beijo

Christian V. Louis disse...

Assim como existem todos os tipos de pessoas, existem todos os tipos de mães, já que estas, são seres humanos, com seus erros e defeitos também.
Mas ficou no ar se a mãe de Márcia era falecida ou se a abandonara...
Quanto a poesia, ela foi fictícia. ahah.

CEM PALAVRAS disse...

Christian,
Nem falecida e nem a abandonou. Apenas totalmente ausente.
bjs