quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Bom demais pra ser verdade...


Eles se conheceram num show de verão, numa pequena área verde de um hotel. Era um show beneficente e apesar de muitos turistas, a maioria do público era da própria cidade e se conheciam. Som percussivo, músicas da região - chula, samba de roda, samba reggae - a presença de grandes ídolos como Armandinho, arrasando na guitarra e Carlinhos Brown comandando a festa. Comida típica: maniçoba, xinxim de bofe, galinha de xinxim, feijão de corda, vatapá, caruru, acarajé e abará. Havia toda uma magia no ar. O que para os nativos era natural, para os que vieram de fora era a própria ilha da fantasia. 
Os turistas ficavam boquiabertos ao verem os artistas caminhando entre as pessoas. Caetano Veloso e sua família a um canto, apenas curtindo. Parecia mais uma festa familiar do que um show.
Janete estava com as amigas se esbaldando de tanto dançar quando percebeu que estava sendo observada. Um homem baixo, bonito, barba bem feita, se aproximou e depois de puxar conversa Janete o levou para conhecer Caetano, comer todas aquelas delícias e foi explicando os ingredientes. O homem ficou maravilhado. Combinaram de se encontrar dali a dois dias, numa festa de largo em comemoração ao dia da padroeira de uma cidade próxima. O homem lhe entregou o seu cartão e ficaram de se falar por telefone.
Janete colocou o cartão na bolsa e não deu muita importância.
No dia seguinte, já curada da ressaca Janete abre a bolsa, vê o cartão e se surpreende. Ficou claro que o cara não iria ligar nem se interessaria pela festa de largo. Era um político de outro estado e aqueles que o  acompanhavam não eram somente amigos, eram a sua comitiva.
Mas logo depois o telefone toca e combinam tudo. No dia seguinte Janete estaria esperando por eles na praça principal da cidadezinha com todos os abadás que ele pedira para reservar. Queriam participar do bloco puxado por trio elétrico famoso. Tudo correu como o combinado. Ao final desse dia, após passarem todo o tempo 'vivos' atrás do trio, entraram em seus vários carrões e foram embora prometendo voltar em breve.
Dois meses depois Janete recebe um telefonema avisando que o político estaria chegando para uma reunião de secretários de estados em um grande hotel de sua cidade, onde ele também ficaria hospedado. Combinaram que Janete iria encontrá-lo no hall do hotel à noite, quando ele estaria livre.
Insegura, chamou duas amigas para irem com ela e ficaram aguardando. Primeiro veio o assessor e em seguida o secretário. Foi logo convidando Janete para subir até seu quarto com a desculpa que esquecera lá umas fotos que queria que ela visse.
Janete ficou toda desconcertada e pediu licença para ir ao toilette com as amigas. Desabafou logo: estou com uma tremenda dor de barriga de nervoso, estou me sentindo como um animal sendo levado para o abatedouro. Acho até que borrei as calças. Que mico!
As amigas tentaram animá-la, sugerindo saírem dali, levá-los para conhecer outros lugares e tomarem uns drinks.
Rodaram pela cidade fazendo uma via sacra de bar em bar, tentando evitar o 'finalmente'. Janete quando os levou de volta ao hotel estava semi bêbada e enjoada. Ele convidou-a novamente para subir até seu quarto, mas ela não conseguiu. Desaguou ali mesmo no estacionamento o seu mal estar.
No carnaval do ano seguinte ele voltou, agora acompanhado do governador do seu estado (figura influente na política nacional), vários secretários, deputados e suas respectivas esposas e filhos. De todo o grupo, somente ele veio só. Compraram um camarote na melhor localização do circuito e Janete foi convidada. Dessa vez foi diferente, ele a estava cortejando, fazendo questão de apresentá-la a todos do seu grupo e só a chamava carinhosamente de 'moça bonita'. Janete agora estava segura, achando que ele realmente estava interessado nela. Ele a levantava pela cintura e a rodopiava em plena rua, foram atrás de vários trios, brincaram e se divertiram muito.
Na quarta feira de cinzas Janete foi buscá-lo no hotel para um programa a dois. Ela meio sem jeito, sem saber o que fazer, dirigia por toda a cidade de um lado para outro, esperando uma atitude dele, mas ele só ria da situação e falava sem parar.
Chegou um momento que Janete decidiu: é agora ou nunca. Entrou com o carro em um motel e o político pediu a melhor suíte. Era imensa, completa, com sauna seca e a vapor, ducha circular, hidromassagem e uma piscina de 6m por 3,5m.
Ele foi tomar uma ducha demorada, voltou como se estivesse em seu próprio quarto, abraçou-a, só 'comeu um tira-gosto' rapidamente e ligou a televisão. Estava passando um jogo do Santos, seu time de coração. Janete ainda ficou ao seu lado por algum tempo, mas ele só tinha olhos para a TV. Não lhe restou mais nada além de aproveitar a piscina. Ficou nadando até o jogo terminar. E ponto. Nada mais. Minto - ao deixarem a suíte eles comeram alguns bombons de uma cestinha que estava em cima do frigobar.
Desde o princípio Janete duvidara. Homem sozinho dando sopa durante tanto tempo é bom demais para ser verdade...
Nunca mais ela o viu.

5 comentários:

Célia disse...

... Hum... seria amizade colorida??
... Ah! sabor de decepção!
[ ] Célia.

CEM PALAVRAS disse...

Célia,
Quem sabe...Até hoje Janete não entendeu o que houve.
beijos

@ Escritora disse...

Gostei da história, pena que o final foi decepcionante pra ela!

Coisas da vida!

Bjos

AFRICA EM POESIA disse...

Tu precisas de contar
E eu ...preciso de ouvir!...


Beijos

Severa Cabral(escritora) disse...

Seu texto éstá muito bom...aplausod
bjsssssssssssss